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Teorias das Altas Habilidades ou Superdotação

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O Que É Superdotação? Descubra Como Identificar

Definir altas habilidades ou superdotação (AH/SD) está longe de ser uma tarefa simples. O tema possui múltiplas camadas e exige a compreensão de que não existe um único modelo teórico ou critério absoluto capaz de esgotá-lo. Cada autor enxerga esse fenômeno por um prisma diferente, de modo que as abordagens se complementam.

Nesta primeira parte, vamos analisar três propostas fundamentais para entender o talento e sua identificação na escola: o Modelo Diferenciado de Dotação e Talento de Françoys Gagné, o Modelo de Munique de Kurt Heller e o Modelo dos Três Anéis de Joseph Renzulli. Em comum, todas demonstram que o talento não nasce pronto; ele é o resultado da interação entre o potencial individual e as oportunidades oferecidas pelo ambiente.

Gagné: dotação não é o mesmo que talento


Modelo Diferenciado de Dotação e Talento (DMGT), de Françoys Gagné (2013).

Françoys Gagné parte de uma distinção que muda a conversa: dotação e talento não são sinônimos. Dotação é a posse de aptidões naturais acima da média, o potencial bruto, inato e ainda não treinado. Talento é o desempenho notável que aparece quando essas aptidões são desenvolvidas de forma sistemática. Nas palavras do próprio quadro do modelo, a dotação é o potencial (o "hardware") e o talento é a competência que se consegue executar (o "software").

As aptidões naturais se organizam em quatro domínios: intelectual, criativo, sócio-afetivo e sensório-motor. Elas não viram talento por conta própria. No caminho entre uma coisa e outra existe o processo de desenvolvimento, feito de aprendizagem, prática deliberada e treinamento, que pode acontecer de modo formal (na escola, em cursos) ou informal. É essa transformação, sistemática e progressiva, que leva a dotação a se converter em talento nas áreas que o modelo destaca: artes, ciências e tecnologia, esportes, relações sociais e negócios, tecnologia e administração.

Entre o potencial e o resultado, Gagné coloca dois grupos de catalisadores, e esse é um dos pontos mais ricos do modelo:

  • Catalisadores intrapessoais: fatores físicos (saúde geral, eventuais deficiências, constituição corporal) e mentais (motivação, persistência, resiliência, autoeficácia, gestão emocional).
  • Catalisadores ambientais: recursos físicos, pessoas (pais, professores, mentores), programas especiais e eventos marcantes na trajetória.
Por que isso importa na prática: uma criança pode ter uma dotação enorme e nunca chegar a mostrar talento se faltarem estímulo, apoio ou condições para se desenvolver. O inverso também ajuda a pensar: o ambiente favorável não deveria ser privilégio de quem já foi identificado como superdotado, mas oferecido a todas as crianças e jovens.

Como identificar, segundo Gagné

Para Gagné, identificar não é aplicar um único teste. É reunir várias fontes: a avaliação dos educadores, que acompanham o dia a dia da aprendizagem, testes padronizados, testes de inteligência, avaliações de criatividade, motivação e personalidade, além de informações sobre o clima da escola e da família. Também entram a opinião dos pais, dos colegas e do próprio estudante. E o foco é sempre o desenvolvimento: o que a criança já mostra e o que pode vir a mostrar se for bem acompanhada.

Heller e o Modelo de Munique: olhar para a pessoa inteira


Modelo de Munique, de Kurt Heller. Fonte: Freitas e Schelini (2018, p.116).

O Modelo de Munique, criado por Kurt Heller, segue na linha de Gagné e defende que a identificação não pode se limitar às medidas tradicionais. Muita coisa que decide se um talento vai aparecer fica de fora dos testes padronizados. Por isso o modelo organiza a análise em três blocos que conversam entre si:

  • Fatores do talento (preditores): sete dimensões, que são as capacidades intelectuais, a criatividade, a competência social, a inteligência prática, as capacidades artísticas, a musicalidade e as capacidades psicomotoras.
  • Moderadores: o que facilita ou atrapalha a passagem do potencial para o desempenho. De um lado, as características não cognitivas de personalidade: enfrentamento, motivação, estratégias de trabalho e aprendizagem, controle da ansiedade e expectativas de controle. De outro, as condições ambientais: o ambiente familiar de aprendizagem, o clima familiar, a qualidade do ensino, o clima da sala de aula e as tarefas evolutivas de cada fase da vida.
  • Áreas de performance (critério): onde o talento se manifesta, como matemática, ciências naturais, tecnologia, computação e xadrez, artes, línguas, esportes e relações sociais.

Repare que o mesmo preditor pode levar a resultados muito diferentes, dependendo dos moderadores. Uma criança com alta capacidade intelectual, mas muito ansiosa e numa sala de aula pouco acolhedora, pode render menos do que o esperado. É da interação entre preditores, moderadores e critérios que nasce a grande diversidade de talentos.

A identificação no Paradigma de Munique

Heller entende o talento como algo multifacetado, e por isso defende uma identificação multidimensional, que junta duas tradições. O paradigma psicométrico olha para o potencial individual e usa instrumentos como os testes de QI. O paradigma da expertise dá mais peso à personalidade (motivação, métodos de aprendizagem) e ao contexto social e cultural, e dá menos ênfase à inteligência medida. O Modelo de Munique busca integrar os dois, levando em conta o maior número possível de fatores. O processo acontece em três etapas:

  1. Triagem da população escolar: todos os alunos, seus professores e seus pais respondem a questionários específicos, enquanto especialistas observam os estudantes na escola.
  2. Avaliação de preditores e moderadores: os alunos apontados como potencialmente talentosos passam por testes e questionários.
  3. Avaliação individual: uma análise mais detalhada, que serve para encaminhar o aluno a programas de atendimento especializado.

Esse trabalho deve acontecer ainda no Ensino Fundamental e só faz sentido se a escola tiver programas preparados para receber os alunos identificados. Identificar sem oferecer atendimento é meio caminho andado.

Renzulli e os Três Anéis


Modelo dos Três Anéis, de Joseph Renzulli. Fonte: Renzulli (2015).

Joseph Renzulli criou o conceito dos três anéis dentro de um programa de intervenção pensado para desenvolver tanto o potencial acadêmico quanto o criativo-produtivo. Na imagem, a superdotação aparece na área em que os três anéis se cruzam: habilidade acima da média, envolvimento com a tarefa e criatividade.

Habilidade acima da média. Pode ser geral, como o raciocínio verbal, numérico ou espacial e a gestão da memória, ou específica, como química, dança, composição musical ou desenho. É o anel mais estável ao longo do tempo e o mais ligado aos traços cognitivos que os testes costumam medir (e esses testes não são a única forma de avaliá-la). Mesmo assim, ela sozinha não garante sucesso na vida real: o êxito profissional depende também de fatores não cognitivos, ligados a traços pessoais e à força de vontade.

Envolvimento com a tarefa. Reúne características não intelectuais que aparecem de forma constante em pessoas muito criativas e produtivas: perseverança, determinação, força de vontade, energia positiva. Na prática, é uma motivação refinada e concentrada, direcionada a resolver um problema ou dominar uma área. Quem contribuiu de verdade para o seu campo costuma ter essa capacidade de se dedicar por longos períodos e de não desistir diante de obstáculos que fariam os outros recuar.

Criatividade. Inclui curiosidade, originalidade, generosidade e uma tendência a questionar tradições e convenções sociais.

Um ponto que muda a forma de ensinar: enquanto o desempenho medido pelos testes tende a se manter constante, o envolvimento com a tarefa e a criatividade variam. Podem surgir ou sumir conforme o contexto e as experiências, inclusive as educacionais. Ou seja, são traços que a escola e a família podem estimular, e muitas vezes um alimenta o outro.

Por isso Renzulli não vê a alta habilidade como uma característica absoluta e fixa, e sim como um conjunto de comportamentos dotados que se desenvolvem na resolução de problemas. Para ele, a função mais importante da educação é dar a crianças e jovens oportunidades e recursos para gerar ideias criativas e adquirir as habilidades necessárias para levá-las adiante.

Referências

  • FREITAS, Márcia F.R.L.; SCHELINI, Patricia W. Escala de Identificação de Dotação e Talento: construção de instrumento e validação de conteúdo. Interação em Psicologia, v.22, n.8, p.114-122, 2018.

  • FREITAS, Márcia F.R.L.; SCHELINI, Patricia W.; PÉREZ, Edgardo R. Escala de Identificação de Dotação e Talento: estrutura e consistência internas. Psico-USF, v.22, n.3, p.473-484, 2017.

  • GAGNÉ, Françoys. The DMGT: Changes Within, Beneath and Beyond. Talent Development and Excellence, v.5, n.1, pp. 5-19, 2013.

  • HELLER, Kurt A. Identification of Gifted and Talented Students. Psychology Science, v.46, n.3, p.302-323, 2004.

  • RENZULLI, Joseph. Un sistema multicriterial para la identificación del alumnado de alto rendimiento y de alta capacidad creativo-productiva. Revista de Educación, n.368, p.96-117, 2015.

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